Cultura e Comportamento, Filmes, Livros
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Livro vs Filme: um problema de perspectiva

Cada vez mais estreiam nos cinemas e na TV adaptações de quadrinhos e grandes obras de ficção e fantasia, abrindo espaço para fandoms cada vez maiores e mais críticas. Quantas vezes a gente não já ouviu aquele show off de pagação intelectual O livro é melhor?

Mas, porque mesmo?

eu tava tentada a colocar no título “who wore it better”, mas acho que o google não ia curtir muito.

Em História do Cinema Mundial, Georges Sadoul nos conta que o cinema esteve prestes a morrer em 1907 por falta de temáticas interessantes para filmes. Segundo o autor, a situação só foi modificada quando os irmãos Lafitte, na França, buscaram narrativas originais de escritores, exemplo seguido pelo mundo todo, gerando não só filmes com durações maiores como também catabolizando as adaptações literárias.

Para o próprio cinema crescer e se popularizar se foi necessário estabelecer-se como narrativa, por mais inegável que seja suas fontes na literatura e no teatro.

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A necessidade da temática ainda é pulsante no cinema atual. Embora, pela lógica capitalista vigente, exista um processo de retroalimentação: o livro gera o filme, o filme vende livro.

Basicamente fandom

Amém

Em nome do pai, da fandom e do diretor santo

Hattnher (2010) coloca que a consagração da palavra como sagrada está enraizada culturalmente desde as proibições judaico-islâmico-protestantes associadas às “imagens gravadas”. Nesse sentido, a valorização do texto escrito original é algo que nos é imposto socialmente muito antes do seu quadrinho favorito da Marvel ter sido assassinado nas telonas 3 vezes no corpo de Tobey Maguire.

Cada plataforma tem um clímax sensorial diferente, impossibilitando qualquer hierarquização.

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Assim, a categorização de um filme se dá de mais fiel a menos fiel, não existindo um intermédio qualificatório visto que não existe algo ~meio que fiel~. O cinema é tido como arte inferior à literatura, produzido não por uma mente artística, mas por um conjunto de pessoas e efeitos que trazem aquilo à tona. O cinema / televisão “transformam em realidade aquilo que imaginamos” e é exatamente aí onde, pra mim, mora o problema. A partir do momento que nós imaginamos algo nos apropriamos daquilo.

É que fanboy acha feio tudo que não é igual ao original.

A cena da morte de Sirius Black em Harry Potter e a Ordem da Fênix é um fiasco cinematográfico especial para mim. Na época (quando eu não tinha lido ainda o quinto livro e me desapontado com saga e, consequentemente, parado de ler), a cena tinha um efeito particular doloroso, não só porque era um dos meus personagens favoritos, mas também pela própria construção da morte do rapaz – sinalizada desde o começo da narrativa. O ponto é que eu me apropriei da cena, me apropriei do momento, e criei uma expectativa sobre o que aquilo foi ou devia ser. Tudo isso naquelas linhas corridas e muito antes do filme.

Algo apropriado faz parte de você, você se sente dono daquilo. Existe um ownership coletivo da obra. Uma fandom sedenta por fidelidade, pela canônico, e, ao mesmo tempo, pela própria expansão da narrativa: eles querem ver exatamente o que imaginaram com estímulos sensoriais adicionais. Um livro com DLC, se você quiser falar assim. A originalidade possui status sacro. Nada pode mexer com ela, tudo que modifica-la é ruim.

"Tchau, Harry. Você é um protagonista muito chato."

“Tchau, Harry. Você é um protagonista muito chato.”

Dessa forma, o audiovisual – cinema, série e similares – é dito como produto de um original e não como existente por si só, estabelecendo níveis hierárquicos.

Em geral, quando se fala em adaptação de obras literárias para o cinema se pensa, automaticamente, na transposição do enredo, da história de um romance para as telas do cinema. Quando alguém se pronuncia sobre a fidelidade de um filme à obra literária em que se baseou, geralmente essa fidelidade remete exclusivamente à esfera da história, importando se o ator “encarna” devidamente as características da personagem de um romance, ou se os acontecimentos presentes no livro são respeitados no filme. (COELHO 1999, p. 97)

Sometimes-you-sound-like-broken-record-trying-convice-your-friends-read-your-favorite-book

Prestando atenção às necessidades de cada mídia

A linguagem cinematográfica […] não é só literatura. Ele mistura fotografia, teatro, música, dança, pintura e literatura, criando a sua própria linguagem, que está em constante transformação, como qualquer linguagem. Muitos outros elementos, não presentes na literatura, são utilizados pela linguagem do cinema, como os movimentos de câmera, os enquadramentos, a música, a cor e a luz. Cabe ao roteirista agregar esses elementos ao filme de modo a ser fiel – ou não – ao espírito do texto.  Furtado (2003, p. 2)

Propor um valor superior a uma plataforma ou outra é inviável quando transcendemos a questão da fidelidade como métrica de sucesso fílmico. O estímulo sensorial oferecido ao espectador/leitor é diferente em cada meio; enquanto podemos estimular os tato, olfato, paladar e despertar outras sensações através de descrições escritas (vide literatura erótica), é possível estimular a visão e audição através de obras cinematográficas. Cada plataforma tem um clímax sensorial diferente, isso impossibilita qualquer hierarquização qualificatória. Stam (2008) propõe que a intertextualidade nos ajudaria a transcender a busca pela fidelidade.

Os estímulos diferentes fazem do livro  melhor que o filme? É uma questão de perspectiva.

Who wore it better: Adaptação de narrativa Livro e Filme

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Referências:

TEXTO LITERÁRIO E ADAPTAÇÃO CINEMATOGRÁFICA http://www.cienciaemcurso.unisul.br/interna_capitulo.php?id_capitulo=222

ADAPTAÇÃO REMISSIVA E DIGRESSIVA: TRANSPOSIÇÃO DE METAFICÇÃO PARA O CINEMA http://seer.fclar.unesp.br/itinerarios/article/view/5623/4718

O PROCESSO DE LEITURA: DAS NARRATIVAS LITERÁRIAS ÀS ADAPTAÇÕES CINEMATOGRÁFICAS http://jornadasliterarias.upf.br/15jornada/images/stories/trabalhos-12-seminario/03-maribel-barbosa-da-cunha.pdf

Quem mexeu no meu texto? Observações sobre Literatura e sua adaptação para outros suportes textuais http://www.abralic.org.br/downloads/revistas/1415576147.pdf

Oooops typo? Viu algo errado nessa postagem? Me avisa nos comentários
Fazer junto é mais gostoso. Compartilhe suas dicas e ideias com a gente.

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