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Como eu me descobri bissexual – #SayuSemQuerer

Não te ensinam sobre bissexualidade na escola

A primeira vez que eu pensei em algum contato físico íntimo com uma outra garota eu fazia a oitava série: dei uma risadinha e pensei “eu daria um beijo nela”. O riso foi em tom gozado, eu não entendia – e não podia entender na época – que era possível você ter interesse romântico e físico por mais de uma identificação de gênero, até porque até meus 18 anos eu nunca tinha tombado forte por uma garota (as crianças hoje em dia chamam de crush).

Eu gostava de caras, namorava caras, ficava com caras, e isso por si só era suficiente para ignorar qualquer atração por pessoas do mesmo gênero que eu. O pensamento era bastante simples: Se você gosta de caras não pode gostar de meninas, porque quem gosta de meninas (sendo menina) é lésbica. Eu não me via, nunca me vi e ainda não me vejo, como lésbica. Então, a conclusão lógica era que eu era “curiosa” e “mente aberta”, mas heterossexual. Esse foi um dos maiores problemas para me identificar como bissexual. Um problema que enfrentei por quase 10 anos.

Quando você está crescendo te ensinam pouco sobre homossexualidade, te ensinam menos ainda sobre bissexualidade. Desde o pensamento do beijinho e risadinha até a aceitação de quem eu sou, vivi numa profunda incapacidade de me entender. Pra mim não era possível conceber a atração por dois gêneros – e de tudo além e no intermédio deles -.

O que a escola não me ensinou, a rua tratava como “moda” ou “fase”.  Se você ficava com meninas e meninos era por duas opções A) Você era uma menina e queria chamar atenção; B) Você era um menino e não queria se assumir gay – AINDA.

Ser bi não existia.

Então eu internalizava toda a noção da própria inexistência de meus sentimentos, físicos e românticos. Eu não gostava de garotas, era só fase. 

E foi sendo “só fase” por 3 anos, até rolar aquele primeiro crush maldito. Aquele crush que te joga no chão e você não consegue negar que dorme pensando na pessoa – e sonha com ela depois.

sexualidade não é uma linha reta monossexual

sexualidade não é uma linha reta monossexual

There’s no fucking CAIXA

Apesar do meu primeiro crush por uma pessoa com a mesma identidade de gênero que eu ter me jogado no chão e pisado em cima, na época eu namorava um cara. Foram MOMENTOS na minha vida.

Não tinha mais como negar que me sentia atraída por meninas, mas não tinha como negar que me sentia atraída por pessoas com identidade de gênero masculina também. Só foi depois do fim do namoro e das trocas de amizade que eu vim entender que existe um outro lado do arco-íris. Existem pessoas que são bissexuais (somos, oi!). Até aí minha confusão já durava 5 anos.

Mas “bissexual” não era algo que eu me identificava. Mesmo dentro da Comunidade LGBTQA, já saída do ensino médio e assumidamente curtindo meninas (ao menos dentro do meu safe space), minha bandeira era não ter bandeira. “Eu gosto de gente”, “Eu não me rotulo” etc.

Ao mesmo tempo que eu tinha a necessidade de me encaixar em algum lugar, pertencer a algum grupo, não me sentia contemplada pela noção dada de nenhum deles. Dentro da comunidade, em pesquisas da internet, na conversa da vizinha, bissexualidade ainda era uma fase. Ser bissexual era sinônimo de ser promíscuo, de ser indeciso. Eu não era nada disso.

Até porque bissexualidade é uma coisa difícil de se entender pra quem não vive, pra quem não é.  A própria ideia de que você ainda é bissexual se tiver em uma relação “homo” ou “hétero” era algo inconcebível na minha cabeça. Se eu namorasse uma menina eu seria lésbica, se eu tivesse solteira eu seria bi. Era isso que eu entendia. Bissexualidade era um status de relacionamento no facebook, não era uma sexualidade válida. E, no meio da minha própria confusão, tudo que eu não queria era mudar de sexualidade a cada relacionamento.

Não importa o gênero do atual parceirx ou suas experiências românticas prévias: sua sexualidade é válida!

Não importa o gênero dx atual parceirx ou suas experiências românticas prévias: sua sexualidade é válida!

Em 2012 (7 anos sem entender quem eu era. Sim, estou fazer uma linha do tempo da minha confusão) encontrei o youtube da Laci Green, ela me ajudou muito nos problemas de auto estima e – adivinha – tentando entender minha sexualidade. Um dos primeiros vídeos que eu vi foi sobre Porque ela era Pansexual. Aí eu pensei ó que massa, ser pansexual é sentir atração por pessoas independente do gênero. (antes eu, como muita gente, achava que ser pansexual era você sentir atração por qualquer coisa) – Eu devo ser pansexual.

Meus amigos da comunidade LGBTQA também não aceitavam muito bem que eu era bi / pan – ou mesmo que eu tinha atração por pessoas com a mesma identidade de gênero -, até por eles próprios entenderem que bissexualidade era uma fase entre homo e hetero e porque eu tinha só ficado com uma menina na minha vida – uma experiência com todos os carimbos de “acidente bêbado” – embora ébrio, não foi nenhum acidente. O álcool ajudou na coragem rs

Eu precisava validar minha sexualidade constantemente, mesmo dentro da comunidade LGBTQA

E me apeguei a esse rótulo de pansexual por longos dois anos, sem nunca realmente me sentir confortável nele. A primeira dificuldade vinha de entender a diferença entre ser bissexual – aquele termo temido que  significava basicamente você não sabe o que é – e ser pansexual. 

Ser gay BI é ok

Até hoje, um dos maiores questionamentos da comunidade – e meu também – é a questão da identificação da bissexualidade como atração por mais de um gênero ou atração por pessoas independente do gênero, significados que se interligam à própria proposta da pansexualidade.

O primeiro argumento levantado é que “homo” significa mesmo, “pan” vários e “bi” significa “dois” -, assim bissexuais sentem atração romântica e física pelos dois (cis)gêneros.  Mas eu acredito que, muito mais do que o significado semântico, existe uma reapropriação do termo, existe uma evolução com a aprofundação dos estudos sobre gênero. É natural que as coisas evoluam quanto mais se estuda sobre elas.

Perceba que em 2005 não se entendia o que direito era a tal da bissexualidade, em 2012 tinha canal no youtube discutindo pansexualidade.  As pessoas são livres para se resignificarem elas mesmas e curtir ou não mais do que dois (cis)gêneros e ainda se identificar como bissexual.

Meu segundo erro foi achar que todo bissexual é 50/50

Meu segundo erro foi achar que todo bissexual é 50/50

No fim  de 2014 eu conheci a semana da visibilidade bi, que acontece anualmente na semana do dia 23 de setembro, dia da visibilidade bissexual. Junto com a semana, conheci o bisexual.org e um texto sobre bissexualidade ser um termo guarda-chuva, que abrange pessoas identificadas como polissexuais, demisexuais, pansexuais, heteroflexíveis,  etc, embora eu não totalmente concorde com isso hoje em dia.  A união do site com conversas de bar com um amigx renderam uma identificação muito maior de quem eu sou com a bissexualidade.

Quebrar os estereótipos foi entender a mim mesma e – finalmente – aceitar como sou. O processo ainda não parou, claro, tem sido uma jornada de sair do armário todos os dias – enfrentar piadinhas, preconceitos dentro e fora da comunidade LGBTQA e ter pessoas constantemente invalidando o que eu sou e o que eu sinto. Mas hoje eu me sinto abraçada, contemplada e, acima de qualquer coisa, feliz.

 

O rótulo, que não era importante antes, hoje é bandeira. Se identificar é um ato político. Eu sou bissexual.

 

 

 

 

 

imagens: https://goo.gl/EkWknv

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