Cultura e Comportamento, fandom, Livros
Comentário 1

FANDOM: Construindo uma Identidade Coletiva

Lançado originalmente em 1992, Invasores de texto (original: textual poachers) consiste até hoje em uma das obras mais importantes para o estudo da cultura de fãs. Na coletânea de posts que se seguirão pelas próximas semanas, farei um resumo comentado de cada capítulo do livro como forma de incentivo ao início da minha própria jornada em estudos culturais.

A edição brasileira de Invasores de texto foi lançada em 2015 pela Marsupial Editora, traduzida por Érico Gonçalves de Assis, e acompanha um texto introdutório fantástico escrito pela Raquel Recuero.

O fã devoto e o apreço pelo inalcançável

Com a estréia de Jornada nas Estrelas em 1966 e consequente popularização  da série, o programa de TV Norte Americano, Saturday Night Life, promoveu uma esquete com a participação de William Shatner, um dos atores participantes do seriado.

Durante o bloco, os atores do programa interpretavam fãs de Jornada na Estrelas como adultos infantilizados e obcecados por detalhes irrelevantes da trama. Em determinado momento da esquete, Shatner vira-se para a platéia e implora que eles “caiam na real”.

Apesar da esquete ter sido tida como “apenas uma piada” é possível notar esse mesmo comportamento de ridicularização da cultura fã nos dias de hoje. Em 2015, na Comic Con Experience no Brasil, em São Paulo, integrantes do programa Panico na TV se “fantasiaram” como “nerds” expuseram vários participantes do evento, chegando a assediar uma mulher.

A cultura de fã é a piada do dia na emissora.

Essa caracterização do fã pela mídia o coloca numa posição ou hipersexualizada (como a fã groupie que faz de tudo pelo ídolo) ou assexualizados.  Durante a esquete do SNL, Shatner chega a ridicularizar a vida romântica e privada dos fãs, “você aí já beijou uma menina?”.

Essa interpretação não só é inerentemente cultural, como é um problema semântico. Em sua origem latina, fanaticus, a palavra foi constantemente ligada ao entusiamo excessivo ou enganado’, fanatismo religioso e outros tipos de obsessão.

Somente no século 19 que o significado foi reapropriado por jornalistas, usado para denominar pessoas que acompanhavam equipes esportivas profissionais (p.32). Apesar disso, a conotação de “insano” e “devoto” ainda pode ser percebida nos discursos atuais.

Representações de fãs na mídia constantemente abordam o “insano”

Não só o Programa Pânico infantiliza e desdenha do “fã”. Hollywood vem representando os fãs em grupos de loucos psicóticos, alivio cômico e groupies. Mesmo hoje, quando a comercialização da cultura pop atinge basicamente todos os níveis da população, é possível discernir níveis ‘aceitáveis’ de consumo dessa cultura. Uma linha que divide o nerd infantilizado do geek com camisa da Riachuelo.  

Normatização do “bom gosto”

A banalização do apreço da comunidade fã por experiências midiáticas está conceitualizado no próprio entendimento de “bom gosto” como um senso burguês do que é certo, do que vale a pena e do que possuí mérito estético. Esse entendimento é uma experiência social enraizada na própria cultura ocidental. O gosto torna-se uma das formas mais importantes de distinção social e forja a identidade de classe (p. 35). A normatização do gosto cria uma periferia onde os que não fazem parte do senso comum são tidos como “incultos” e seus objetos de interesse são marcados como “banais”. Distinções de gosto determinam não só as formas culturais desejáveis mas também formas desejáveis e indesejáveis de relacionamento com objetos culturais, estratégias desejáveis de interpretação e estilos de consumo (p.35).

A partir do momento que um indivíduo ou uma comunidade quebra esse paradigma, automaticamente é estigmatizado como ignorante, idiota ou infantil. O status quo se sente ameaçado por quem quebra os padrões, assim, para Jenkins, o fã é tido como um violador de hierarquias culturais.

A quebra não se dá só por questão hierárquica, mas também pela violação do sacrilégio da autoridade do autor, quebrando o distanciamento estético prezado pela estética burguesa (a gente já discutiu um pouco sobre isso nesse post). A partir do momento que o fãs se apropriam do conteúdo original e criam em cima dele – seja através de (aqui explicado de forma bem simplista) intervenções visuais, fanarts, ou revisões em texto, fanfics -.  Jenkins afirma que a resistência dos fãs à hierarquia cultural vai além da simples inadequação de sua seleção textual e geralmente cai na própria lógica através da qual os fãs constroem o sentido em torno de suas experiências culturais. (p.37)

Esse reapropriamento dos textos canônicos (para fins desse texto vamos entender “canônico” como tudo que foi escrito pelo autor na história original) é o que transforma a apreciação pela obra em uma identidade coletiva. Participar da cultura de fã é uma atividade inerentemente social, ao contrário daqueles estereótipos divulgados pro Hollywood. Por exemplo, apesar da minha avó amar a atual novela das 8 (não importa qual novela esteja no ar no momento que você estiver lendo esse texto, provavelmente ela vai estar assistindo e curtindo muito), segundo Jenkins, ela só é fã da novela no sentido estrito de assistir ao programa regularmente. Minha avó não participa da comunidade de fãs da novela das 8, falta a ela a conexão social a uma rede ampla de fãs (p. 41).  

Jenkins se baseia em Michel de Certeau na hora de significar os fãs como leitores que se apropriam de textos populares e que os releem de uma forma que serve a seus interesses distintos, como espectadores que transformam a experiência de assistir televisão em uma cultura participativa mais rica e complexa. (p. 42)

Os fãs deixam de ser meramente audiência desses textos; ao invés disso, tornam-se partícipes da construção e circulação de significados textuais (JENKINS, 1992, p.42)

Ao “tomar empréstimo” dos textos midiáticos, os fãs resignificam seus símbolos dentro sua própria interpretação e utilizam-se deles para construir sua identidade pessoal e coletiva. O cânone serve de embasamento para a criação de outros textos e formas a partir da perspectiva coletiva do fandom e interpretação individual do fã sobre o texto original.

O fã toma para si o poder transformador do autor e deixa de lado a visão passiva do leitor burguês, regojizando do poder de não só reinterpretar situações das quais discorda na história, mas pegando para si o poder de criar representações da sua própria identidade.

O fã rompe com o ‘pré-estabelecido’; seja o “bom gosto”, seja a heteronormatividade. Ele cria e recria aquela história quantas vezes e em quantas plataformas midiáticas lhe couber criar. O fã é disruptivo por natureza.

Quem invadiu o meu texto?

Jenkins pontua o início do media fandom organizado na mesma época do surgimento do seriado Jornada nas Estrelas, por volta da segunda metade dos anos 1960. Muitos desses fãs pós-1960 visavam influenciar de alguma forma a grade de programação das emissoras, como os fãs de Jornada nas Estrelas pressionaram a NBC para o retorno do seriado ou como os fãs da série A Bela e A Fera fizeram uma movimentação similar em prol da anulação do cancelamento da série.

Ao longo dos anos, muitas manifestações similares tomaram conta de comunidades de fãs, principalmente com a popularização da internet. Em 2013, um comercial de um projeto sem título criado pela Kyoto Animation, no Japão, ganhou alcance mundial no Tumblr e, mesmo sem nenhuma informação sobre o projeto, os fãs criaram fanarts, fanfics e petições online para que o desenho fosse fabricado. E foi.

Mas nem toda história de diálogo entre fãs e produtoras termina com duas temporadas e quatro filmes. Nos anos 1980, os fãs de Star Wars entraram em conflito com a LucasFilm. Lucas ameaçou processar editores que publicaram obras que violavam os “valores familiares” associados aos filmes (p.49). Os fãs entenderam que o posicionamento da LucasFilm era uma interferência desnecessária na atividade criativa deles (p.49) e simplesmente viraram rogue, criando uma rede subterrânea de distribuição desse conteúdo ‘não autorizado’ pela LucasFilm.

Mais recentemente, no início dos anos 2000, tivemos a notória briga de Anne Rice, autora de Entrevista com o Vampiro, contra os autores de fanfiction. A escritora chegou a emitir um pedido formal ao site FanFiction.net para que todas as obras relacionadas a seus livros e personagens fossem retiradas do site. Em uma entrevista para o jornal Metro UK, em 2012, Anne afirma ter mudado de opinião e prefere apenas ‘evitar ler fanfics’.

Os fãs devem lutar ativamente com e contra os significados impostos a eles pelos conteúdos que tomam de empréstimo; os fãs devem confrontar as representações midiáticas em terreno desigual. (JENKINS, 1992, p.51)

Essa noção “apropriação do texto”, ou “invasão”, é explorada por Jenkins através de comparações entre as classificações de Certeau e Stuart Hall. O modelo de Hall, pelo menos da forma como é aplicado, sugere que significados populares são fixos e classificáveis, enquanto o modelo de ‘invasão’ de Certeau enfatiza o processo de criar sentido e a fluidez da interpretação popular (p.52).

Jenkins esclarece que o significado produzido pelo fã não é necessariamente oposto ao significado já criado pelo autor, até porque os fãs escolhem aquele produto midiático em particular justamente por já existir um grau de compatibilidade entre a construção ideológica do texto e os vínculos ideológicos do fãs (p.52). 

Leitores Nômades

Uma noção importante inserida no livro é que esses invasores não são ligados tão somente a um texto. Eles estão em constante movimento,  apropriando-se de  novos materiais, construindo novos sentidos (Certeau, p. 174).

A pesquisadora Janice Radway (1988)  coloca os fãs como agentes “livres e desprendidos” e critica o estudo do grupo dentro de ‘cercas’ em prol de um contexto cultural maior. Radway ainda disserta que os fãs utilizam fragmentos de vários textos e várias culturas para produzir seus discursos e práticas ideológicas.

A cultura de fã (…) pode ser entendida não em termos do interesse exclusivo por um seriado ou gênero; ao invés disso os fãs tem o prazer de construir conexões intertextuais entre uma ampla gama de textos. (JENKINS, 1992, p.55)

Essas conexões são traçadas em teia, criando uma  rede intertextual que conecta tradições culturais da própria comunidade de fãs. É como se fosse uma piada interna gigante. Podemos perceber esse cruzamento de textos também ser absorvido pela própria mídia.

Os fãs, assim como outros consumidores da cultura popular, leem tanto intertextualmente quanto textualmente, e seu prazer vem das justaposições particulares que criam entre conteúdos específicos de programas e outros conteúdos culturais. (JENKINS, 1992, p. 55)

A observação da imagem acima automaticamente promove ligações entre o seriado Supernatural e o desenho Gravity Falls. Sem que o observador esteja munido do conhecimento cultural em torno da imagem, não é possível compreendê-la como um todo.

Supernatural faz referência a The Walking Dead

Essas intertextualidades são comumente encontradas dentro dos próprios textos midiáticos. Supernatural, com uma fanbase grande suficiente para arrastar o seriado por mais de 10 temporadas, conseguiu promover uma ode à sua própria fandom, em um episódio devidamente chamado Fan fiction. O mesmo seriado fez uso de intertextualidade diversas outras vezes, em um episódios como Changing Channels, Ghostfacers e outros. Notadamente, os Simpsons também são conhecidos pela enorme quantidade de referências em seus episódios.

Incentivados pelos próprios textos e pela cultura interna dentro de sua comunidade, é natural que o fã expanda ainda mais sua rede intertextual. Jenkins argumenta que a participação no fandom, muitas vezes, não está isolada ao consumo de um só produto, justamente pela comunidade ser inerentemente intertextual. Esses cruzamentos terminam por gerar um dialeto próprio entre os participantes.

É comum que os fãs de um determinado seriado encontrem naquela comunidade portas para outras fanbases – e algumas dessas fandom se unam, formando comunidades ainda maiores.

Uma dessas mega comunidades foi a junção de três shows com fanbases gigantes: Supernatural, Doctor Who e Sherlock Holmes. Datando de 2011, os superwholockians explodiram em popularidade no Tumblr entre 2013 e 2014 e caíram em declínio pouco depois. Existe uma enorme base de material feito por fãs que intersecciona essas três fandoms. (#Funfact: A última inserção de fanfic na AO3 com a tag SuperWhoLock é de 13 de Março de 2017).

Claro, essa situação não é específica de ambiente digitais nos quais a cultura de fãs se prolifera, como o Tumblr. Em Invasores de Texto, Jenkins exemplifica a inclusão e incorporação cultural interfandom com a primeira edição da Zine Rerunque traz em sua capa um aglomerado de referências a diversas fandoms.

A iconografia de vários seriados está presente na capa da primeira edição da Rerun. Podemos perceber referências à Dr. Who, Avengers, Dark Shadows e outros.

Os significados produzidos através das discussões acerca do texto original e seus intertextos moldam a percepção de futuros contatos com outros textos midiáticos. A comunidade de fãs assim se torna uma rede social e cultural global, que transforma a experiência de consumo da mídia em uma nova comunidade com textos próprios.

Art World

Howard Becker (1982)  adotou o termo Art World para descrever uma rede formada por vínculos cooperativos entre instituições de produção, distribuição, consumo e interpretação artística: os Art Worlds produzem a obra e também a atribuem valores estéticos.

O fandom constitui um componente do Art World  na mídia de massa, servindo tanto de apoio à criação artística, como árbitros de sua potencial transformação e evolução. Seu conhecimento e vínculo com o texto midiático garante que eles possam colaborar de forma mais propícia com o autor em seu esforço conjunto que produz a obra. (p.63)

A origem do fandom de ficção científica está exatamente nesse ponto de conversação entre público e autor.  A coluna  Amazing Stories, de Hugo Gersback, servia de apoio entre essa conexão e – mais tarde – facilitou a troca de ideias dos público entre si, gerando as comunidades de fãs. Em 1939, essa comunidade chegou a uma proporção grande o suficiente para promover a primeira convenção mundial de ficção científica (p.64), tradição que se perpetuou – em proporções muito maiores e mais abrangentes – até os dias de hoje.

Essas convenções se tornaram vitrines para a comercialização de textos e artes de autoria dos próprios fãs. O Art World produzido pelo media fandom gira mais em torno dos textos elaborados pela própria comunidade do que do consumo da mídia existente (p.64). Não tardou a surgirem ferramentas e empresas dedicadas a distribuir e comercializar essa produção de fãs.

Com o advento e popularização da internet, essa distribuição de conteúdo foi facilitada em sites especializados (como o deviantart, fanfiction.net, ao3, pixiv.net em especial para o público de fanart asiático e, em alguma escala, o próprio Tumblr). Não o bastante, as próprias comunidades se organizaram para refletir o ‘fandom’. A MediaWest Con, datando de 1978,  é uma convenção criada de fãs e centrada em fãs (p. 65), é possível conferir toda a história da Con – que ainda está ativa – clicando aqui.  Além do Fanlore, do podcast Fansplaining, entre outros, existem organizações como o Fan Studies Network, que promovem encontros mundiais com foco no estudo de fãs.

Os textos de fã, seja escritos, sejam obras de arte, músicas ou vídeos, são moldados pelas normas sociais, convenções estéticas, protocolos interpretativos, recursos tecnológicos e pela competência técnica da grande comunidade fã. Os fãs possuem não apenas os resquícios emprestados ou surrupiados da cultura de massa mas também sua própria cultura construída a partir do material bruto semiótico que a mídia fornece. (JENKINS, 1992, p. 66)

Anúncios

1 comentário

  1. Percebi que o fandom é a razão de eu gostar de boa parte das coisas que gosto: Chrono Trigger, Dark Souls, NieR, Silent Hill, e agora… Bloodborne. Todos tem algo em comum, apesar de existir uma história sendo contada, muita coisa só é possível compreender quando um entendimento melhor da backstory é tido.

    No caso de NieR, existe um livro contando muita coisa acerca do universo e fatos que nunca são sequer citados no próprio jogo. Dark Souls / Bloodborne tem um jeitinho interessante de contar a história, pois existem pouquissímas cutscenes, contamos com alguns NPCs onde suas histórias são desenvolvidas em algum tipo de “conto”, já os ítens contam descrições únicas sobre o universo, então cabe o jogador ligar os pontos e preencher os vazios com suas próprias interpretações. Universo Chrono (Trigger e Cross), conta uma aventura de viajantes do tempo, onde aprendem que suas escolhas no passado podem salvar seu futuro, mas que também podem causar um desastre muito maior num futuro desconhecido.

    Tudo isso acima não seria completamente aproveitado se não existisse a comunidade de fãs. Esse prazer que tenho de “degustar” algo que gosto, não seria possível sem o fandom.

    Belo texto, keep it coming!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s